Na primeira metade do século passado, a cidade de Bagé vivia um dilema comum aos centros urbanos da época: o crescimento da mendicância. Pelas calçadas, o número de pedintes crescia a ponto de gerar um aspecto apreensivo na população. Foi nesse cenário que a SBAN, a Sociedade de Beneficência Auxiliadora dos Necessitados, decidiu intervir com um plano audacioso para erradicar a esmola de rua através da assistência organizada. Fundada em dezembro de 1936, a SBAN iniciou a distribuição de dinheiro aos necessitados no dia 27 de janeiro de 1937.
A estratégia era clara: separar o joio do trigo. A instituição acreditava que, ao garantir um sustento financeiro direto, eliminaria a necessidade de os verdadeiros necessitados vagarem pela cidade. Ao mesmo tempo, o sistema serviria para identificar os chamados mendigos falsos — aqueles que, na visão da época, possuíam saúde e vigor para o trabalho, mas preferiam a vida da mendicância.
O dia da primeira distribuição de auxílios foi tratado como um evento de Estado. Naquela manhã, a elite política e jurídica da Rainha da Fronteira se reuniu para dar o aval ao projeto. O prefeito Luiz Mercio Teixeira e o juiz Paulo Thompson Flores encabeçaram a lista de autoridades que testemunharam a entrega de envelopes contendo entre vinte e cinquenta mil réis. No total, oitenta e oito bageenses, previamente cadastrados e sindicados por comissões, foram os primeiros beneficiados.
O ritual era rigoroso. Para evitar que o dinheiro fosse gasto de uma só vez, a SBAN estabeleceu pagamentos quinzenais, realizados invariavelmente nos dias 1 e 16 de cada mês. A intenção era doutrinária: dar ao assistido a previsibilidade de uma renda, como se fosse um salário da providência.
Após a cerimônia, marcada pelo flash da Foto Barvils, a mensagem enviada à população foi um apelo ao civismo. A SBAN convocou todos os bageenses a se tornarem sócios da instituição, sob o argumento de que, se todos contribuíssem com a agremiação, ninguém mais precisaria estender a mão nas esquinas.
A promessa era de uma cidade livre de pedintes, onde a caridade não seria mais um gesto impulsivo nas calçadas, mas um sistema burocrático e eficiente gerido pelas mãos de homens de bem. Ficou registrado ali um momento em que Bagé tentou institucionalizar a compaixão para, através dela, reorganizar o próprio espaço público.
Foto: Imagem Ilustrativa
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